está a fazer dois anos que decidi dar um novo rumo à minha vida. não foi uma decisão tomada de ânimo leve. foi longamente ponderada e, em Setembro de 2011, ao chegar de Itália do casamento da minha melhor amiga, aceitei que o meu casamento tinha chegado ao fim. como me é característico, não gosto de espaços cinzentos (há quem ache um defeito e me chame egoísta), e não pensei mais. a decisão estava tomada e havia que procurar, rapidamente, uma nova casa. não tardei a encontrar um apartamento "cosy" e muito ao meu gosto. numa ida ao IKEA, com a preciosíssima ajuda da minha nora Ana (que várias vezes me dissuadiu de desistir e deixar lá o carrinho encalhado a um canto), o apartamento ficou mobilado. Em meados de Outubro, mudei para aquele que hoje se tornou um espaço muito especial.
e veio o Outono. um Outono estranho que me trouxe algumas dúvidas. "...e vamos tentar de novo, cada um em sua casa...", a velha negação, própria de quando uma relação chega ao fim. porque a ruptura brusca dói mais "e se fizermos isto devagar...quem sabe...
Dezembro foi um mês muito crítico, com muitas lágrimas e dúvidas dos dois lados. quando o amor acaba, fica um grande "buraco" por preencher e, quantas vezes, esse "buraco" nos diz "volta para trás...".
Janeiro trouxe consigo a ruptura total, a queda das nuvens e muita dor. foi um mês muito longo e muito escuro, assombrado pelo medo. mas, como já referi atrás, não sou de me deixar ficar muito tempo nestes espaços e aos poucos peguei na pouca força que me restava, agarrei-me ao trabalho, ao meu filho Tomás que ainda precisa tanto de mim e, atirei-me para a frente. procurei a ajuda de um terapeuta fantástico, comecei a fazer Shiatsu com outra terapeuta fantástica e inundei, literalmente, os meus amigos mais próximos com telefonemas e lágrimas. e eles estiveram sempre lá para mim.
em Fevereiro, totalmente de impulso, comprei uma viagem para Paris na Easyjet e fui pedir colo e abraços à minha melhor amiga. nesta cidade acontecem-me sempre as histórias mais incríveis e improváveis. e desta vez não foi excepção.
e tudo isto foi fazendo com que eu, aos poucos, começasse a olhar para dentro de mim. para lugares que, por medo da dor, eu sempre havia evitado. aprendi (mais uma vez) que não valia a pena fugir dos meus fantasmas porque assim eles continuariam, eternamente, a assombrar-me. e neste processo, para o qual olho agora com muita gratidão, apercebi-me que algures nestes últimos (muitos) anos, o meu lado criativo, que é tão necessário para que me sinta equilibrada, tinha praticamente deixado de existir. recomecei a pintar e a escrever. a construir com as mãos coisas bonitas (confesso que me surpreendi com algumas das coisas que criei) que estavam há muito reprimidas. a minha casa começou a mudar e, finalmente, fi-la minha.
a minha Orquídea, que não floria há quatro anos, cobriu-se de flores. os fantasmas foram-se transformando em situações reais de que eu fui falando e exorcizando. já não são fantasmas. são apenas momentos da minha vida que ajudaram, também, a construir a mulher que sou hoje. não posso dizer que estejam totalmente resolvidos ou se alguma vez estarão. não podemos mudar o passado mas podemos aceitá-lo de modo a encontrar a paz necessária.
por esta altura comprei um calendário muito bonito onde se pode ler "wonderfull things will happen in 2013".
e veio Abril e Maio e Junho. e chegou o Verão! com pouco dinheiro e sem grandes perspectivas de férias, decidi que ia ser um verão fantástico. e foi mesmo!
aventurei-me a ir sozinha para concertos e festivais. fiz novos amigos e reencontrei outros. passei uns dias na praia com o meu filho Tomás e o pai e outros no campo com amigos que já não via há anos. fartei-me de dançar e de tomar banhos no mar. passeei sozinha na praia à noite que é coisa que gosto muito de fazer e que não fazia há anos. retomei o hábito de, ao fim da tarde, me sentar numa esplanada e, algumas vezes fiquei a conversar até de manhã.
a minha neta Constança está quase a fazer um ano. no Domingo foi o seu baptizado. foi uma festa muito bonita e muito especial. o Tomás foi escolhido para padrinho e, quem me conhece, sabe o que essa escolha representou para mim. o Tomás e a Constança, sem o saberem, também foram duas forças que me ajudaram a relativizar os momentos mais difíceis deste ano. o Tomás porque ainda precisa muito da mãe, do amor da mãe e de uma mãe saudável e funcional. a Constança porque ainda é tão pequena e foi-me confiada algumas vezes pelo Bernardo e a Ana. o sorriso dela e a confiança dos pais em tudo ajudaram para que eu me pusesse de novo de pé.
o verão está a acabar. hoje de manhã, saí de casa às 8:30 para trabalhar e cheguei a casa às 20:30. o fim de tarde reservei-o para comprar uns novelos de lã para fazer qualquer coisa para mim. Já apetece o Outono. também o reservei para ir ao hipermercado fazer as compras adiadas desde o fim de semana. encontrei-me lá com dois amigos. a ela conheci-a este Verão e passamos uma noite super divertida a dançar e a falar. a ele conheço-o há anos. Demos um abraço apertado e voltamos a dizer um ao outro "gosto muito de ti". és uma pessoa muito especial para mim".
saí do Continente e estavam a cair os primeiros pingos de chuva deste Outono.
meti as compras no carro e deixei-me estar, alguns minutos, a sentir o cheiro da terra molhada, enquanto a chuva me caía ao de leve na cara.
"wonderfull things are happening in 2013".
obrigada!
p.s
este texto foi pensado durante uns tempos e, por essa razão, quando me sentei a escrevê-lo, as palavras foram-me saindo ao correr da pena. só há algumas horas atrás me apercebi que ele começa em Setembro de 2011, salta para Outubro de 2012, faz o Inverno e o Verão de 2013 para chegar ao momento actual. há uma série de meses que "saltei". Muita coisa aconteceu nesses meses. Foram sobretudo dominados pela dor física de um pós- operatório muito doloroso e muito tempo de fisioterapia. nada podemos fazer quanto à dor física senão esperar que passe. o que não é o caso quando se trata de dor emocional. Talvez por isso me tivessem "escapado". a nossa cabeça prega-nos partidas engraçadas...
volto atrás no tempo para o dia 15 de Outubro de 2012, o dia em que nasceu a minha neta Constança. foi um dos dias mais felizes da minha vida. o tempo restante que me "escapou" lá estará algures no passado. no lugar merece.
j
p.s
este texto foi pensado durante uns tempos e, por essa razão, quando me sentei a escrevê-lo, as palavras foram-me saindo ao correr da pena. só há algumas horas atrás me apercebi que ele começa em Setembro de 2011, salta para Outubro de 2012, faz o Inverno e o Verão de 2013 para chegar ao momento actual. há uma série de meses que "saltei". Muita coisa aconteceu nesses meses. Foram sobretudo dominados pela dor física de um pós- operatório muito doloroso e muito tempo de fisioterapia. nada podemos fazer quanto à dor física senão esperar que passe. o que não é o caso quando se trata de dor emocional. Talvez por isso me tivessem "escapado". a nossa cabeça prega-nos partidas engraçadas...
volto atrás no tempo para o dia 15 de Outubro de 2012, o dia em que nasceu a minha neta Constança. foi um dos dias mais felizes da minha vida. o tempo restante que me "escapou" lá estará algures no passado. no lugar merece.
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