Para um amigo tenho sempre um relógio esquecido em qualquer fundo de algibeira. Mas esse relógio não marca o tempo inútil. São restos de tabaco e de ternura rápida. É um arco-íris de sombra, quente e trémulo. É um copo de vinho com o meu sangue e o sol. António Ramos Rosa
trazia a bicicleta
pela mão. era alto e franzino. o corpo tão leve fazia com que, ao andar, os pés
não chegassem a tocar no chão. usava uns óculos, pequenos e redondos, que escondiam
uns olhos muito azuis e um olhar tímido. ia devagar de um lado para o outro do
paredão da praia. por vezes, com a mão a proteger-lhe os olhos cerrados, parava
para fitar o horizonte como se procurasse alguém ou alguma coisa que estivesse
para chegar. apesar de ser um anjo, não se lhe viam asas. talvez estivessem
escondidas debaixo da camisa grossa de xadrez azul. ou talvez não as tivesse.
a princípio não o
vi. era a bicicleta que denunciava a sua presença, passeando sozinha, para lá e para cá, ao longo
do paredão. mas, pouco depois, uns sons suaves que
pareciam vir do mar, iam-se tornando mais nítidos até eu perceber que era a sua
voz. e essa voz deu-lhe um corpo e uma camisa de xadrez azul.
falou-me dos
desenhos que via nas nuvens e de como o faziam sonhar. pediu-me que mergulhasse
para que, através da minha pele, pudesse sentir o prazer de se entregar à
vontade das ondas. disse-me que tinha perdido a conta aos dias que por ali andava. corria o paredão em conversa com quem ali passasse e o quisesse ouvir, sempre à
espera do mesmo comboio. aquele comboio que passava e nunca parava na estação.
por vezes deixava
de o ver. o corpo desfazia-se na espuma das ondas, deixando para trás a voz
doce e a bicicleta. e depois reaparecia de novo, como se nunca tivesse partido.
vinha aí de novo o
comboio. as ondas abriram-se para o deixar passar. um enorme pedaço de ferro
surgiu furioso por entre as vagas, desafiando-as, rompendo-as. cada vez maior à
medida que se aproximava do ponto da praia onde estávamos. trazia consigo um
vento gelado que que nos enchia o rosto e o cabelo da espuma e das algas que
vinham do mar. e o meu anjo, tirando os óculos, despediu-se de mim com um
sorriso e um aceno. agarrando a bicicleta com uma mão e esticando
entusiasticamente a outra, preparou-se para partir. era desta que o comboio
parava e o levava para o destino desejado.
mas aquele comboio
não parou. passou por nós destemido e desafiador para pouco depois desaparecer
no horizonte.
o meu anjo tirou os óculos do
bolso e, enquanto os limpava à fralda da camisa de xadrez azul, fitou-me com os
seus olhos pequenos azuis e, sorrindo, perguntou:
...keep on laughing, keep on loving, keep on caring, keep on hearing the music, keep on working, keep on dreaming, keep on dancing, keep on feeling amazed, keep on playing, keep on reading, keep on rocking, keep on living, keep on growing, keep on sharing, keep on learning, keep on enjoying life, keep on being wild. May i keep on feeling grateful for each new day that is given to me. j