sábado, 17 de janeiro de 2015

dreaming of angels...

   
   trazia a bicicleta pela mão. era alto e franzino. o corpo tão leve fazia com que, ao andar, os pés não chegassem a tocar no chão. usava uns óculos, pequenos e redondos, que escondiam uns olhos muito azuis e um olhar tímido. ia devagar de um lado para o outro do paredão da praia. por vezes, com a mão a proteger-lhe os olhos cerrados, parava para fitar o horizonte como se procurasse alguém ou alguma coisa que estivesse para chegar. apesar de ser um anjo, não se lhe viam asas. talvez estivessem escondidas debaixo da camisa grossa de xadrez azul. ou talvez não as tivesse.
   a princípio não o vi. era a bicicleta que denunciava a sua presença, passeando sozinha, para lá e para cá, ao longo do paredão. mas, pouco depois, uns sons suaves que pareciam vir do mar, iam-se tornando mais nítidos até eu perceber que era a sua voz. e essa voz deu-lhe um corpo e uma camisa de xadrez azul.
   falou-me dos desenhos que via nas nuvens e de como o faziam sonhar. pediu-me que mergulhasse para que, através da minha pele, pudesse sentir o prazer de se entregar à vontade das ondas. disse-me que tinha perdido a conta aos dias que por ali andava. corria o paredão em conversa com quem ali passasse e o quisesse ouvir, sempre à espera do mesmo comboio. aquele comboio que passava e nunca parava na estação.
   por vezes deixava de o ver. o corpo desfazia-se na espuma das ondas, deixando para trás a voz doce e a bicicleta. e depois reaparecia de novo, como se nunca tivesse partido.
   vinha aí de novo o comboio. as ondas abriram-se para o deixar passar. um enorme pedaço de ferro surgiu furioso por entre as vagas, desafiando-as, rompendo-as. cada vez maior à medida que se aproximava do ponto da praia onde estávamos. trazia consigo um vento gelado que que nos enchia o rosto e o cabelo da espuma e das algas que vinham do mar. e o meu anjo, tirando os óculos, despediu-se de mim com um sorriso e um aceno. agarrando a bicicleta com uma mão e esticando entusiasticamente a outra, preparou-se para partir. era desta que o comboio parava e o levava para o destino desejado.
   mas aquele comboio não parou. passou por nós destemido e desafiador para pouco depois desaparecer no horizonte.
   o meu anjo tirou os óculos do bolso e, enquanto os limpava à fralda da camisa de xadrez azul, fitou-me com os seus olhos pequenos azuis e, sorrindo, perguntou:
- E tu? Esperas alguém?
j

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