terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Silent Night...


o Natal foi sempre uma festa muito especial em casa dos meus pais. para nós crianças, começava no dia 1 de Dezembro, dia em que abríamos a primeira janela do calendário do advento. cada um tinha o seu. 
o primeiro Natal que recordo foi passado na Inglaterra, em Exeter. tinha seis anos e acreditava no Pai Natal com toda a força que tem o coração de uma criança desta idade. 
assim que começava Dezembro, começavam os preparativos e a excitação. o bacalhau chegava de Portugal mandado pela avó Toina. com ele vinham os ladrilhos de marmelada e outras coisas boas. a avó Noémia mandava as golas em crochet para aplicarmos no vestido de Natal.
a rua onde eu morava era uma daquelas ruas típicas de tantas cidades inglesas. uma rua comprida com casas toda iguais. só variava a cor das aplicações em madeira nas fachadas da casa. a minha era cor de laranja e ostentava o número 129. 
havia uma lareira em cada divisão da casa e uma arrecadação cá fora onde se guardava o carvão. e era sentados à lareira que preparávamos a chegada do Pai Natal. como? cantando-lhe as belíssimas canções de Natal que nos ensinavam na escola, para que  as nossas vozes chegassem rapidamente ao Polo Norte. tínhamos que cantar porque senão ele podia não vir. e cantávamos com todo o coração. 
eu amava profundamente a personagem do pai Natal. um velhinho fofinho, bondoso e gordinho que tinha tanto para dar a nós crianças. todos os anos lhe escrevia uma carta e todos os anos recebia resposta. 
nevava sempre no Natal. tinha que nevar. lembro-me de um ano em que chegamos ao dia 24 e ainda não havia neve. a certa altura, quem passasse à porta de nossa casa, podia ver quatro crianças, de olhar apreensivo, a espreitar pela janela, ansiando que a todo momento começassem a cair os primeiros flocos. o fim do dia trouxe muito frio. e, pouco antes de nos sentarmos para jantar, começaram a cair os primeiros flocos de neve. 
ao cair da noite, vinha o carteiro trazer as últimas cartas. entrava um bocadinho para se aquecer do frio da rua e era convidado a beber um copo de vinho e a provar uma rabanada. 
enquanto a minha mãe preparava o jantar, saíamos com o meu pai para ver se era já possível avistar as renas ou ouvir as campainhas. e, de volta a casa, encontrávamos chocolates em cima da mesa que a minha mãe dizia, não saber como lá tinham ido parar. o Pai Natal fazia destas coisas. 
por vivermos num país que não era o nosso, éramos apenas os seis à volta da mesa. mas tudo era preparado como se de um grande banquete se tratasse. vestíamo-nos a rigor. vestidos novos para as duas meninas, com as golas de renda da avó Noémia, feitos especialmente para esta ocasião. os rapazes de calções, camisa e daquelas gravatas presas com elástico. 
no dia 24 à noite sempre foi tradição oferecermos uns aos outros prendas feitas por nós. depois de abertas as prendas, eu já só ansiava por ir dormir. 
todos os anos, na mesinha de cabeceira, deixava um copo de água e um petisco para o Pai Natal. é que ele vinha cansado e com fome. e depois de reconfortar a barriga e de se sentar um pouco naquela cadeira de baloiço que havia no meu quarto, não se ia embora sem antes me dar um beijo. apesar de, àquela hora, estar a dormir profundamente, nunca deixei de sentir o nariz gelado daquele velhinho de barbas brancas a tocar-me na face.
Merry Christmas!
j

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