sufocada pelo cimento, pela altura dos
edifícios, por aquele cheiro da cidade. deslocada…desfocada… os olhos procuram a
vida no meio do caos. entra no carro e acelera. é urgente sair dali. uma voz chama-a para a floresta. tens que vir... não esperes
mais... não adies mais... o cimento e o barulho vão ficando para trás. pára o carro.
não vais precisar mais dele. corre, corre…tira as sandálias. os pés
descalços batem com força no chão. a erva pisada liberta um cheiro familiar. e
a cada salto começa a rodopiar e os rodopios levam-lhe o vestido, soltam-lhe o
cabelo. corre, corre…não esperes mais – sussurra a voz que a impele para a
floresta. o corpo solta-se largando camadas de pele, pele da cidade, pele
cinzenta de cimento. por leves instantes olha para trás. vê-se em mil pedaços
espalhada pelo chão. coisas que foi deixando pelo caminho. corre! não olhes! e os braços atiram-na para o ar, apontam para o céu, viram-se e tomam
a direcção da montanha que a chama. com o vento fresco vem o cheiro a terra. sente a maciez do musgo e das folhas
debaixo dos pés. e a voz que a chama diz-lhe que não pare. nua,
corre entre as árvores. sente o bater do coração. o pulsar da floresta. respira!… deixa que ela te transforme. uma dor aguda atravessa-lhe o corpo. grita.
hesita… tem medo… olha para trás. grita cada vez mais alto. deixa-te levar,
liberta-te. não hesites… não podes! sabes que te esperam. sabes que o que ficou
para trás já se perdeu no tempo. há muito tempo...
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