domingo, 25 de maio de 2014

into the wild...


sufocada pelo cimento, pela altura dos edifícios, por aquele cheiro da cidade. deslocada…desfocada… os olhos procuram a vida no meio do caos. entra no carro e acelera. é urgente sair dali. uma voz chama-a para a floresta. tens que vir... não esperes mais... não adies mais... o cimento e o barulho vão ficando para trás. pára o carro. não vais precisar mais dele. corre, corre…tira as sandálias. os pés descalços batem com força no chão. a erva pisada liberta um cheiro familiar. e a cada salto começa a rodopiar e os rodopios levam-lhe o vestido, soltam-lhe o cabelo. corre, corre…não esperes mais – sussurra a voz que a impele para a floresta. o corpo solta-se largando camadas de pele, pele da cidade, pele cinzenta de cimento. por leves instantes olha para trás. vê-se em mil pedaços espalhada pelo chão. coisas que foi deixando pelo caminho. corre! não olhes! e os braços atiram-na para o ar, apontam para o céu, viram-se e tomam a direcção da montanha que a chama. com o vento fresco vem o cheiro a terra. sente a maciez do musgo e das folhas debaixo dos pés. e a voz que a chama diz-lhe que não pare. nua, corre entre as árvores. sente o bater do coração. o pulsar da floresta. respira!… deixa que ela te transforme. uma dor aguda atravessa-lhe o corpo. grita. hesita… tem medo… olha para trás. grita cada vez mais alto. deixa-te levar, liberta-te. não hesites… não podes! sabes que te esperam. sabes que o que ficou para trás já se perdeu no tempo. há muito tempo...
j

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