sábado, 9 de novembro de 2013

"a casa das tias"

                                                                       A "Petiti"
                                                               
                                                                     A Avó Toina

aquela era uma casa especial. o lugar para onde eu fugia.
partia de Braga e saía no Porto, na Praça da República.
por essa altura, ao descer a Rua da Boavista, já o passo era apressado e o coração batia mais forte.
a casa tinha campainha mas eu gostava do batente. trás!trás!trás! três vezes. sempre.
elas conheciam bem o meu bater...
uma espécie de quadrado rendilhado, pequeno quadrado, sobrepunha-se a um vidro que só era fechado à noite.
enquanto esperava que abrissem (às vezes parecia uma eternidade), espreitava, esperando ansiosamente ouvir aquelas vozes tão familiares que diziam sempre que eu ali era amada. por aquele quadrado rendilhado saíam cheiros únicos daquela casa da Boavista. a casa das tias cheirava a coisas antigas, a roupa lavada no tanque e à sopa da avó Toina. Tudo me vinha daquele quadrado rendilhado com um vidro que só se fechava à noite.
"olá joaninha, olá minha netinha, olá bolotinha... abraços e beijos repenicados que só elas me sabiam dar.
era uma casa cheia, aquela. três tias avós, um tio avô, uma avó, um trisavô e uma uma bisavó A tia Adozinda, tia preferida, a quem chamávamos Petiti, a tia Idalina, a tia Adelina e a avó Toina ocupavam a casa. A bisavó Bela vivia na memória e dentro dos armários e das gavetas. transfigurada em casacos de veludo cristal, vestidos lindos do princípio do século e camisas de dormir com monograma. o tio avô, "Tio Major" Alfredo vivia  nas história de viagem contadas pelas irmãs e na vitrine, nos objectos que tinha trazido das viagens ao oriente. Com ele veio o Majong e aqueles papeis pousados na janela da casa de banho que, quando queimados, purificavam o ar.
o jardim era azul ,verde e amarelo, carregado de hidranjas e de limões.
embalada pelas histórias que eu pedia que me contassem ou pelas peças tocadas ao piano pela Petiti, o tempo passava devagar na casa das tias.
quando a noite caía e a vela que nunca era apagada fazia desenhos pelas paredes da sala, esperava-me uma cama quentinha e a camisa de dormir, com monograma, embrulhada numa botija de cobre.
ali eu era feliz...
j

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