naquela manhã de Novembro acordou diferente. respirou fundo. quase que podia sentir que o corpo já não lhe pertencia. invadiu-a uma euforia, talvez como aquela que, quando da beira de uma falésia, se toma a decisão de cair para o vazio. respirou. com o corpo tomado pelo coração, corria nele uma energia que estranhou por já não a sentir há tanto tempo. deixou-se ficar longamente debaixo do chuveiro, respirando. não há pressa quando sabemos que amanhã já não vem. escolheu uma roupa confortável e quente. lembra-se que estava um dia frio. saiu de casa com uma lista imaginada de tudo que queria fazer e uma lucidez tal que, quem se cruzasse com ela na rua e lhe olhasse os olhos, quase poderia ler o que ali estava escrito. correu as ruas, de tarefa em tarefa, como se debaixo dos pés, a guiá-la, estivessem uns carris que só a deixassem ir por ali. e respirou. estava muito consciente da respiração. o ar frio de Novembro entrava-lhe pelas narinas, chegava aos pulmões e transformava-se num líquido quente que partia a aquecer o resto do corpo. ao cair da noite, já em casa, trancou a porta. lembra-se do prazer desse gesto. de se fechar ao mundo. de ficar inacessível, incomunicável. respirou e sentiu-se livre. tão livre que de novo sentiu aquela euforia da manhã. como se o tempo tivesse parado ou já não se medisse por horas, minutos ou segundos. porque o tempo é diferente quando sabemos que amanhã já não vem. e o coração bateu mais forte. estava a chegar a hora. respirou. pôs a tocar a música escolhida, acendeu dezenas de velas e, na calma da noite, escreveu um pequeno bilhete. corria o risco desse bilhete lhe alterar os planos. mas tinha que o escrever. e não. não havia planos para alterar porque só existia aquele. não cumpri-lo implicava voltar para aquele sítio escuro de dor e pesadelo, implicava voltar para aquela rotina insuportável e louca, implicava um grande nada. não. essa possibilidade estava completamente fora de questão. das últimas coisas de que se lembra é do telemóvel a tocar ("Sou eu. tenho tantas saudades tuas. sabes? liguei-te porque estou a ouvi-lo em directo na radio. está a tocar a nossa música!") e do adeus.
e o corpo quente a desfazer-se. a viajar no espaço. leve. tão leve... j
e o corpo quente a desfazer-se. a viajar no espaço. leve. tão leve... j
"i am blinding. autoluminescent. i am white heat. i am heaven sent. i was a nightmare but i'm not gonna go there, again. into the black hole, the house of no contest. make mine a meteor. rise me above the rest. i'm soaring through outer space. there is no better place to be. i'm bigger than Jesus Christ. i'm greater than God in light. i am dangerous. i cut like the sharpest knife. i'm going nova and i hope i can hold her, in. into the darkness, i gave away myself. slipped on the spiral stairs, tumbling down the well. i fell on a soft spot. i'm white heat, i'm white hot. again..."
Rowland S. Howard (1959-2009)
Sem comentários:
Enviar um comentário